quarta-feira, 12 de outubro de 2011

A CRIANÇA



Julia



Leonardo


Geovana



O primeiro homem é o primeiro visionário de espíritos.



A ele tudo aparece como espírito.O que são as crianças, senão primeiros homens?O fresco olhar da criança é mais transcendenteque o pressentimento do mais resoluto dos visionários.(Novalis)



Sim, julgo às vezes, considerando a diferença hedionda entre a inteligência das crianças e a estupidez dos adultos, que somos acompanhados na infância por um espírito da guarda, que nos empresta a própria inteligência astral, e que depois, talvez com pena, mas por uma lei mais alta, nos abandona, como as mães animais às crias crescidas…(Bernardo Soares)



O sábio é tímido e humilde — o mundo não o entende.Ele se comporta como uma criança pequena.(Tao-Te-Ching)

Nossos dias são preciososmas com alegria os vemos passandose no seu lugar encontramosuma coisa mais preciosa crescendo:uma planta rara e exótica,alegria de um coração jardineiro;uma criança que estamos ensinando,um livrinho que estamos escrevendo.(Rückert)



O objetivo da vida é ser criança. (Groddeck)


A maturidade de um homem consiste em achar de novo a seriedade que se tinha como criança — ao brincar.(Nietzsche)



Vocês dizem: “Cansa-nos ter de conviver com as crianças”.

Têm razão. Vocês dizem ainda: “Cansa-nos porque precisamos descer ao seu nível de compreensão”. Descer. Rebaixar-se, inclinar-se, ficar curvado. Estão equivocados. Não é isso o que nos cansa, e sim o fato de termos de elevar-nos até alcançar o nível de sentimentos das crianças. Elevar-nos, subir, ficar nas pontas dos pés, estender a mão. Para não machucá-las.(Janusz Korczak)



Tudo terminaria nietzschiana e schumannianamente numa “Cena Infantil”: a Criança.Todas as nossas instituições escolares têm por objetivo transformar a criança em adulto.Todas as nossas práticas ditas educativas têm por objetivo transformar a criança que brinca no adulto que trabalha.

Eu, ao contrário, acredito que a criança é aquilo que de belo, criativo e alegre existe em nós, eternamente. O objetivo da educação não é destruir a criança, transformando-a em adulto produtivo. O objetivo da educação é dar à criança os conhecimentos que permitirão que ela continue a ser criança — sem se machucar. E, mais do que isso: é ajudar-nos, adultos, a curar-nos da nossa doença. Escrevi muitas coisas sobre as crianças, saltando de pico em pico. Estão espalhadas nos livros que escrevi. E, para terminar essa conversa como criança, deixe queeu sopre essa bolha de sabão…



“… e uma criança pequena os guiará”



A fotografia é simples, apenas um detalhe: duas mãos dadas, uma mão segurando a outra. Uma delas é grande, a outra é pequena, rechonchuda. Isso é tudo. Mas imaginação não se contenta com o fragmento, completa o quadro: é um pai que passeia com seu filhinho. O pai, adulto, segura com firmeza e ternura a mãozinha da criança: a mãozinha do filho é muito pequena, termina no meio da palma da mão do pai. O pai vai conduzindo o filho, indicando o caminho, vai apontando para as coisas, mostrando como elas são interessantes, bonitas, engraçadas. O menininho vai sendo apresentado ao mundo.



É assim que as coisas acontecem: os grandes ensinam, os pequenos aprendem. As crianças nada sabem sobre o mundo. Também pudera! Nunca estiveram aqui. Tudo é novidade. Alberto Caeiro tem um poema sobre o olhar (dele), que ele diz ser igual ao de uma criança:


“Meu olhar é nítido como um girassol. E o quevejo a cada momento é aquilo que nunca antes eu tinhavisto, e eu sei dar por isso muito bem… Sei ter o pasmoessencial que tem uma criança se, ao nascer, reparasse que nascera deveras… Sinto-me nascido a cada momento 
para a eterna novidade do mundo”.


O olhar das crianças é pasmado! Vêem o que nunca tinham visto! Não sabem o nome das coisas. O pai vai dando os nomes. Aprendendo os nomes, as coisas estranhas vão ficando conhecidas e amigas. Transformam-se num rebanho manso de ovelhas que atendem quando sãochamadas. Quem sabe as coisas são os adultos. Conhecem o mundo. Não nasceram sabendo. Tiveram de aprender. Houve um tempo quando a mãozinha gorda rechonchuda era a deles. Um outro, de mão grande, os conduziu. O mais difícil foi aprender quando não havia ninguém queensinasse. Tiveram de tatear pelo desconhecido. Erraram muitas vezes. Foi assim que os caminhos e rotas foram descobertos. Já imaginaram os milhares de anos que tiveram de se passar até que os homens aprendessem que certas ervas têm poderes de cura? Quantas pessoastiveram de morrer de frio até que os esquimós descobrissem que era possível fabricar casas quentes com o gelo! E as comidas que comemos, os pratos que nos dão prazer! Por detrás deles há milênios de experimentos, acidentes felizes, fracassos! Vejam o fósforo, essa coisa insignificante e mágica: um esfregão e eis o milagre: o fogo na ponta de um pauzinho. Eu gostaria, um dia, de dar um curso sobre a história do pau de fósforo. Na sua história há uma enormidade de experimentos e pensamentos.


Ensinar é um ato de amor. Se as gerações mais velhas não transmitissem o seu conhecimento às gerações mais novas nós ainda estaríamos na condição dos homens préhistóricos. Ensinar é o processo pelo qual as gerações mais velhas transmitem às gerações mais novas, comoherança, a caixa onde guardam seus mapas e ferramentas. Assim as crianças não precisam começar da estaca zero. Ensinam-se os saberes para poupar àqueles que não sabem o tempo e o cansaço do pensamento: saber para não pensar. Não preciso pensar para riscar um pau defósforo. Os grandes sabem. As crianças não sabem. Os grandes ensinam. As crianças aprendem.
Está resumido na fotografia: o de mão grande conduz o de mãozinha pequena. Esse é o sentido etimológico da palavra “pedagogo”: aquele que conduz as crianças.


Educar é transmitir conhecimentos. O seu objetivo é fazer com que as crianças deixem de ser crianças. Ser criança é ignorar, nada saber, estar perdido. Toda criança está perdida no mundo. A educação existe para que chegue um momento em que ela não esteja mais perdida:a mãozinha de criança tem de se transformar em mãozona de um adulto que não precisa ser conduzido: ele se conduz, ele sabe os caminhos, ele sabe como fazer. A educação é um progressivo despedir-se da infância.


A pedagogia do meu querido amigo Paulo Freire amaldiçoava aquilo que se denomina ensino “bancário” — os adultos vão “depositando” saberes na cabeça das crianças da mesma forma como depositamos dinheiro num banco. Mas me parece que é assim mesmo que acontece com os saberes fundamentais: os adultos simplesmente dizem como as coisas são, como as coisas sãofeitas. Sem razões e explicações. É assim que os adultos ensinam as crianças a andar, a falar, a dar laço no cordão do sapato, a tomar banho, a descascar laranja, a nadar, a assobiar, a andar de bicicleta, a riscar o fósforo. Tentar criar “consciência crítica” para essas coisas é tolice. O adulto mostra como se faz. A criança faz do jeito como o adulto faz. Imita. Repete. Mesmo as pedagogias mais generosas, mais cheias de amor e ternura pelas crianças, trabalham sobre esses pressupostos. Se as crianças precisam ser conduzidas é porque elas não sabem o caminho.


Quando tiverem aprendido os caminhos andarão por conta própria. Serão adultos. Todo mundo sabe que as coisas são assim: as crianças nada sabem, quem sabe são os adultos. Segue-se, então, logicamente, que as crianças são os alunos e os adultos são os professores. Diferença entre quem sabe e quem não sabe. Dizer o contrário é puro “non-sense”. Porque o contrário seria dizer que as crianças devem ensinar os adultos. Mas, nesse caso, as crianças teriam um saber que os adultos não têm. Se já tiveram, perderam…


Mas quem levaria sério tal hipótese? Um profeta do Antigo Testamento — certamente sem entender o que escrevia; os profetas nunca sabem o que estão dizendo — resumiu essa pedagogia invertida numa frase curta e maravilhosa:


“… e uma criança pequena os guiará”.


Se colocarmos esse moto ao pé da fotografia tudo fica ao contrário: é a criança que vai mostrando o caminho. O adulto vai sendo conduzido: olhos arregalados, bem abertos, vendo coisas que nunca viu. São as crianças que vêem as coisas — porque elas as vêem sempre pela primeira vez com espanto, com assombro de que elas sejam do jeito como são. 

Os adultos, de tanto vê-las, já não as vêem mais. As coisas — as mais maravilhosas — ficam banais. Ser adulto é ser cego.


Os filósofos, cientistas e educadores acreditam que as coisas vão ficando cada vez mais claras à medida que as luzes do conhecimento aumentam. Os sábios sabem o oposto: existe uma progressiva cegueira das coisas à medida que o seu conhecimento cresce. “Vale mais a pena­ ver uma coisa sempre pela primeira vez que conhecê-la. Porque conhecer é como nunca ter visto pela primeira vez…” As crianças nos fazem ver “a eterna novidade do mundo…”


Janucz Korczak, um dos grande educadores do século passado — foi voluntariamente com as crianças da sua escola para a câmara de gás de um campo de concentração­ nazista — deu, a um dos seus livros, o título: Quando eu voltar a ser criança. Ele sabia as coisas. Era sábio. Lição da psicanálise: os cientistas e filósofos vêem o lado direito. Os sábios vêem o avesso. A avesso é esse: os adultos são os alunos; as crianças são as mestras. Por isso os magos, sábios da estória natalina, deram por encerrada a sua jornada ao encontrarem um menininho numa estrebaria… Os adultos, para se salvar, deveriam rezar diariamente a reza mais sábia de todas, escrita pela Adélia:


“Meu Deus, me dá cinco anos, me dá a mão, me cura de ser grande…”

Rubem Alves
Livro Sem Fim



Fontes
Imagens do arquivo pessoal de André Ribeiro

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