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quarta-feira, 6 de junho de 2012

A REVOLUÇÃO DARWINIANA



Obra de Xue Jive



A Revolução Darwiniana


Não há futuro num mito sagrado. Por quê? Por nossa curiosidade. […] Seja o que for que consideremos precioso, não podemos protegê-lo da nossa curiosidade porque, sendo quem somos, uma das coisas que consideramos preciosa é a verdade. O nosso amor pela verdade é sem dúvida um elemento central no sentido que damos à nossa vida. Em qualquer caso, a idéia de que possamos preservar o sentido da nossa vida à força de nos enganarmos é uma idéia mais pessimista, mais niilista do que eu, pela parte que me toca, consigo engolir. Se isso fosse o melhor que se pode fazer, concluiria que afinal nada tinha importância. […]


A nossa curiosidade sobre as coisas assume diferentes formas, como Aristóteles assinalou no tratado da ciência humana. O seu esforço pioneiro para classificá-las ainda faz muito sentido. Aristóteles identificou quatro questões básicas sobre qualquer coisa que queiramos responder, e chamou-as aitia, um termo grego verdadeiramente impossível de ser traduzido, tradicional mas desajeitadamente traduzido por quatro “causas”.


Podemos ter curiosidade sobre aquilo de que algo é feito, a sua matéria ou causa material.
Podemos ter curiosidade sobre a forma (ou estrutura ou configuração) que essa matéria assume, a sua causa formal.
Podemos ter curiosidade sobre a sua origem, como começou, ou sobre a sua causa eficiente.
Podemos ter curiosidade sobre o seu propósito ou objetivo ou finalidade (como na pergunta “Será que os fins justificam os meios?”), a que Aristóteles chamou o seu telos, que por vezes se traduz em português, desajeitadamente, como “causa final”.


É preciso alguma ginástica para fazer estas quatro aitia aristotélicas corresponderem a respostas às típicas perguntas portuguesas “o quê, onde, quando e por que”. A correspondência é apenas aproximada. As perguntas que começam com “por que”, contudo, normalmente pedem a quarta “causa” de Aristóteles, o telos de uma coisa. Por quê?, perguntamos. Para que serve? Como dizemos às vezes: qual é a sua razão de ser? Os filósofos e os cientistas reconheceram, durante centenas de anos, que estas perguntas pelo “por que” são problemáticas e de tal modo distintas que o estudo a que dão lugar merece um nome: teleologia.


Uma explicação teleológica é a que explica a existência ou ocorrência de algo fazendo apelo a um objetivo ou propósito a que a coisa serve. Os artefatos são os casos mais óbvios; o objetivo ou propósito de um artefato é a função que o seu criador concebeu para ele. Não há controvérsia sobre o telos de um martelo: serve para martelar e tirar pregos. O telos de artefatos mais complexos, como câmaras de vídeo, caminhões ou scanners é, na pior das hipóteses, mais óbvio. 


Mas mesmo nos casos mais simples, podemos ver que sempre há um problema de fundo presente:
— Por que razão estás a serrar essa tábua?
— Para fazer uma porta.
— E para que é a porta?
— Para proteger a minha casa.
— E por que razão queres proteger a tua casa?
— Para poder dormir descansado.
— E por que razão queres dormir descansado?
— Vai passear e deixa de me fazer perguntas tolas.


Essa troca de palavras revela um dos problemas da teleologia: para que isso tudo? Que causa final podemos apresentar para completar essa hierarquia de razões? Aristóteles tinha uma resposta: Deus, o Motor Imóvel, o para-quê no qual acabam todos os para-quês. A idéia, que foi aproveitada pelas tradições cristãs, judaicas e islâmicas, é que todos os nossos propósitos derivam em última análise de Deus. A idéia é sem dúvida natural e atraente. Se olharmos para um relógio e nos perguntarmos por que razão tem um vidro transparente, é óbvio que a resposta remete às necessidades e desejos das pessoas que usam relógios, que querem saber as horas olhando para o mostrador etc.. Se não fossem estes fatos sobre nós — para quem o relógio foi criado —, não haveria explicação do “por que” do vidro transparente. Se o universo foi criado por Deus para cumprir os seus propósitos, então todos os propósitos que possamos encontrar no próprio universo têm, em última análise, de estar subordinados aos propósitos de Deus. Mas quais são os propósitos de Deus? Isso é algo misterioso.


Uma maneira de afastar o desconforto acerca desse mistério é mudar ligeiramente o assunto. Em vez de responder a pergunta pelo “por que” com uma resposta do tipo “porque” (o tipo de resposta que ela parece exigir), as pessoas substituem muitas vezes a pergunta “por quê?” pela pergunta “como?”, e tentam responder esta última contando uma história sobre como Deus criou a nós e ao resto do universo, sem perder demasiado tempo com a questão de saber exatamente por que razão poderá Ele ter desejado fazer tal coisa. A pergunta pelo “como” não se encaixa na lista de Aristóteles, mas já eram perguntas e respostas populares muito antes de Aristóteles ter apresentado sua análise. As respostas às maiores perguntas pelo “como” são cosmogonias, histórias sobre como o cosmos, o universo inteiro e tudo o que ele contém, passou a existir. O livro do Gênesis é uma cosmogonia, mas há muitos outros. Os cosmólogos que exploram a hipótese do Big Bang, e que especulam sobre os buracos negros e as supercordas, são criadores atuais de cosmogonias. Nem todas as cosmogonias seguem o padrão de um artífice. Algumas envolvem um “ovo do mundo” depositado nas “Profundezas” por uma ave mítica qualquer, e outras envolvem sementes que se deitam à terra e se cuidam. A imaginação humana não dispõe de muitos recursos de que lançar mão quando se confronta com uma questão tão intrigante. Um mito antigo da criação fala de um “Senhor que existe por si” e que, “com um pensamento, criou as águas, depositando nelas uma semente que se transformou num ovo dourado, nascendo ele próprio desse ovo como Brama, o progenitor dos mundos” (Muir 1972, Vol. IV, p. 26).


E qual era o objetivo de todas essas posturas de ovos, sementeiras e construção de mundos? Ou, já agora, qual é o objetivo do Big Bang? Os cosmólogos atuais, à semelhança de muitos dos seus antecessores ao longo da história, apresentam uma história divertida, mas preferem fugir da questão teleológica do “por que”. Será que o universo existe por uma razão qualquer? Será que as razões têm um papel qualquer que se possa compreender nas explicações do cosmos? Será que algo poderia existir por uma razão, sem que se tratasse da razão de alguém? Ou será que as razões — as causas do tipo 4 de Aristóteles — só são apropriadas nas explicações das obras e feitos de pessoas ou de outros agentes racionais? Se Deus não é uma pessoa, um agente racional, um Artífice Inteligente, que sentido poderá ter a mais grandiosa pergunta pelo “por que”? E se a maior pergunta pelo “por que” não tem qualquer sentido, como poderão outras perguntas pelo “por que”, menores e mais simples, ter sentido?


Uma das contribuições fundamentais de Darwin é mostrar-nos uma nova maneira de dar sentido às perguntas pelo “por que”. Queiramos ou não, a idéia de Darwin oferece-nos uma maneira — clara, convincente e espantosamente versátil — de dissolver estes velhos enigmas. É preciso tempo para nos habituarmos à sua idéia, e ela é muitas vezes mal aplicada, mesmo pelos seus amigos mais dedicados. […] O que ganhamos é, pela primeira vez, um sistema explicativo estável que não anda às voltas nem entra numa espiral infinita de mistérios. Aparentemente, algumas pessoas preferem a regressão infinita de mistérios, mas hoje em dia o custo desta estratégia é proibitivo: deixar-se enganar. Podemos enganar a nós próprios, ou deixar essa tarefa a outras pessoas, mas não há uma forma intelectualmente defensável de reconstruir as poderosas barreiras à compreensão que Darwin derrubou.



Joildo Alexandre



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quinta-feira, 31 de maio de 2012

SAUDADES




Sinto saudades de tudo que marcou a minha vida.
Quando vejo retratos, quando sinto cheiros,
quando escuto uma voz, quando me lembro do passado,
eu sinto saudades...

Sinto saudades de amigos que nunca mais vi,
de pessoas com quem não mais falei ou cruzei...

Sinto saudades da minha infância,
do meu primeiro amor, do meu segundo, do terceiro,
do penúltimo e daqueles que ainda vou ter, se Deus quiser...

Sinto saudades do presente,
que não aproveitei de todo,
lembrando do passado
e apostando no futuro...

Sinto saudades do futuro,
que se idealizado,
provavelmente não será do jeito que eu penso que vai ser...

Sinto saudades de quem me deixou e de quem eu deixei!
De quem disse que viria
e nem apareceu;
de quem apareceu correndo,
sem me conhecer direito,
de quem nunca vou ter a oportunidade de conhecer.

Sinto saudades dos que se foram e de quem não me despedi direito!

Daqueles que não tiveram
como me dizer adeus;
de gente que passou na calçada contrária da minha vida
e que só enxerguei de vislumbre!

Sinto saudades de coisas que tive
e de outras que não tive
mas quis muito ter!

Sinto saudades de coisas
que nem sei se existiram.

Sinto saudades de coisas sérias,
de coisas hilariantes,
de casos, de experiências...

Sinto saudades do cachorrinho que eu tive um dia
e que me amava fielmente, como só os cães são capazes de fazer!

Sinto saudades dos livros que li e que me fizeram viajar!

Sinto saudades dos discos que ouvi e que me fizeram sonhar,

Sinto saudades das coisas que vivi
e das que deixei passar,
sem curtir na totalidade.

Quantas vezes tenho vontade de encontrar não sei o que...
não sei onde...
para resgatar alguma coisa que nem sei o que é e nem onde perdi...

Vejo o mundo girando e penso que poderia estar sentindo saudades
Em japonês, em russo,
em italiano, em inglês...
mas que minha saudade,
por eu ter nascido no Brasil,
só fala português, embora, lá no fundo, possa ser poliglota.

Aliás, dizem que costuma-se usar sempre a língua pátria,
espontaneamente quando
estamos desesperados...
para contar dinheiro... fazer amor...
declarar sentimentos fortes...
seja lá em que lugar do mundo estejamos.

Eu acredito que um simples
"I miss you"
ou seja lá
como possamos traduzir saudade em outra língua,
nunca terá a mesma força e significado da nossa palavrinha.

Talvez não exprima corretamente
a imensa falta
que sentimos de coisas
ou pessoas queridas.

E é por isso que eu tenho mais saudades...
Porque encontrei uma palavra
para usar todas as vezes
em que sinto este aperto no peito,
meio nostálgico, meio gostoso,
mas que funciona melhor
do que um sinal vital
quando se quer falar de vida
e de sentimentos.

Ela é a prova inequívoca
de que somos sensíveis!
De que amamos muito
o que tivemos
e lamentamos as coisas boas
que perdemos ao longo da nossa existência...

Clarice Lispector



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segunda-feira, 14 de maio de 2012

NEM TUDO É FÁCIL


Difícil e fácil, uma questão ímpar.


É difícil fazer alguém feliz, assim como é fácil fazer triste.
É difícil dizer eu te amo, assim como é fácil não dizer nada
É difícil valorizar um amor, assim como é fácil perdê-lo para sempre.
É difícil agradecer pelo dia de hoje, assim como é fácil viver mais um dia.
É difícil enxergar o que a vida traz de bom, assim como é fácil fechar os olhos e atravessar a rua.
É difícil se convencer de que se é feliz, assim como é fácil achar que sempre falta algo.
É difícil fazer alguém sorrir, assim como é fácil fazer chorar.
É difícil colocar-se no lugar de alguém, assim como é fácil olhar para o próprio umbigo.
Se você errou, peça desculpas...
É difícil pedir perdão? Mas quem disse que é fácil ser perdoado?
Se alguém errou com você, perdoa-o...
É difícil perdoar? Mas quem disse que é fácil se arrepender?
Se você sente algo, diga...
É difícil se abrir? Mas quem disse que é fácil encontrar
alguém que queira escutar?
Se alguém reclama de você, ouça...
É difícil ouvir certas coisas? Mas quem disse que é fácil ouvir você?
Se alguém te ama, ame-o...
É difícil entregar-se? Mas quem disse que é fácil ser feliz?
Nem tudo é fácil na vida...Mas, com certeza, nada é impossível
Precisamos acreditar, ter fé e lutar
para que não apenas sonhemos, Mas também tornemos todos esses desejos,
realidade!!!





Cecília Meireles






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domingo, 18 de dezembro de 2011

A COR PÚRPURA

Minha sugestão de filme.

A Cor Púrpura



A primeira regra da adaptação cinematográfica é seguida em parte por Steven Spielberg. Foram mantidos no filme a ingenuidade de Cellie, sua fé, a luta dos negros do início do século passado em se manter num mundo preconceituoso; as tragédias, tristezas e revelações de uma família. Já os desejos lésbicos de Cellie são abrandados a tal ponto que no filme ficou quase esquecido em uma única e discreta cena.

No livro, Cellie se refere várias vezes ao amor que sente por Docí Avery, como quando ela deseja ir a seu show:


“Meu Deus, eu quero tanto ir. Num é pra dançar. Nem pra beber. Nem pra jogar baralho. Nem pra escutar Docí Avery cantar. Eu ficaria gradecida só de poder botar o olho nela.”


Ou em seguida quando Albert busca Docí, que está doente para cuidar dela. Cellie fica eufórica:


“Eu acho que meu coração vai vuar pra fora da minha boca quando eu vejo um pé dela aparecer.”



E quando finalmente as duas dormem juntas, Cellie reclama:


“Nunca ninguém gostou de mim, eu falei.

Ela falou, eu gosto de você, Dona Cellie. E aí ela virou e me beijou na boca.

Uhm, ela falou, como se tivesse ficado surpresa. Eu beijei ela de volta, falei, uhm, também. A gente beijou e beijou até que a gente num conseguia beijar mais. Aí a gente tocou uma na outra.



Eu num sei nada sobre isso, eu falei pra Docí.

Eu também num sei muita coisa, ela falou.

Aí eu senti uma coisa muito macia e molhada no meu peito, senti como a boca de um dos meu nenê perdido.

Um pouco depois, era eu que era também como um nenê perdido”.


No filme tudo ficou reduzido a uma troca de beijos (no rosto) entre as duas, carícias nas mãos e só.

Rubens Ewald Filho em seu livro “Dicionário de Cineastas”, fala sobre isso quando biografa Steven Spielberg. “Não tem para ele temas muito profundos. Pudico, não tem coragem de lidar com o homossexualismo (como provou em A cor púrpura, uma fita onde visivelmente ele seguiu um story-board que fez sem alma, porque não entende do problema do negro como demonstraria novamente naquele que é certamente seu pior filme como diretor, Amistad)”.

A segunda regra da adaptação cinematográfica, também foi seguida em parte, já que Spielberg conseguiu captar grande parte do espírito do livro e de sua magia, que o havia tornado irresistível ao grande público leitor e o fez ganhar o prêmio Pulitzer. O filme tem cenas emocionantes e de grande dramaticidade.

A terceira regra não foi seguida. As mudanças feitas por Spielberg no abrandamento do lado lésbico de Cellie não foram exigência para que essa história funcionasse melhor como um filme e sim decisão de um diretor até então covarde, que tinha medo da reação do público conservador frente a esse tema tão espinhoso, ou que talvez quisesse ser melhor aceito pelos membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood (também conservadores), mas não adiantou muito, já que o filme não recebeu nenhuma estatueta.


As cartas de Celli não trazem muitas descrições de paisagens e lugares, ao passo que o filme tem uma belíssima fotografia bem colorida com os campos do interior dos Estados Unidos. As cartas de Nettie, irmã de Cellie, que vira missionária na África são bem mais detalhistas em relação a isso, mas essa parte foi quase cortada no processo de adaptação.


O filme bem como o livro exala música, já que além de Docí, que é cantora, Tampinha, a segunda mulher de Harpo também tem esse sonho. A trilha sonora do filme foi composta por Quincy Jones e a canção “Miss Cellies Blues”, ficou muito famosa, mas nem foi indicada ao Oscar.



A hoje milionária apresentadora Oprah Winfrey também estreou no cinema em A cor púrpura, onde vive a sofrida Sofia, mulher de Harpo, filho do marido de Cellie, que não aceita obedecê-lo e o abandona, briga com o prefeito, fica presa por vários anos e depois sai para trabalhar como mucama da primeira dama.






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segunda-feira, 7 de novembro de 2011

VISTA CANSADA

                                                 
Acho que foi o Hemingway quem disse que olhava cada coisa à sua volta como se a visse pela última vez. Pela última ou pela primeira vez? Pela primeira vez foi outro escritor quem disse. Essa idéia de olhar pela última vez tem algo de deprimente. Olhar de despedida, de quem não crê que a vida continua, não admira que o Hemingway tenha acabado como acabou.

 
Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isto: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não-vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio.

 
Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê. Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro. Dava-lhe bom-dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer.

 
Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima idéia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser também que ninguém desse por sua ausência. O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos.

 
Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.


Otto Lara Resende


Texto publicado no jornal “Folha de S. Paulo”, edição de 23 de fevereiro de 1992.



sábado, 1 de outubro de 2011

EU SEI, MAS NÃO DEVIA


Por Marina Colasanti

Marina Colasanti




Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.







A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.







A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.







A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. 







A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.







A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.







A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.







A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.








(1972)

domingo, 24 de julho de 2011

Onde Vivem os Monstros


Um mergulho na infância


Onde Vivem os Monstros (Where The Wild Things Are), o livro de Maurice Sendak, é pra ler em dois minutos. Na obra de 1963, econômica no texto e com ilustrações de página inteira, o menino Max, é mandado pro quarto depois de fazer malcriações. Na cama, sem jantar, ele começa a imaginar um mundo onde pode reinar em paz. Até perceber, porém, a "vontade de estar em algum lugar onde alguém gostasse dele de verdade".


A concisão de Sendak torna-se, nas mãos de Spike Jonze (Adaptação), uma discussão sensível, verborrágica e um tanto depressiva sobre a infância e amadurecimento.
A adaptação do próprio diretor, ao lado do romancista Dave Eggers, busca significados e extrapola cada página do livro. Razões para a rebeldia juvenil de Max (Max Records) são criadas, assim como paralelos entre o mundo real e a terra dos monstros. Cada criatura ganha personalidade bem definida - manifestações das facetas do próprio Max, comuns à maioria das crianças - e intérpretes à altura.

A Esperança



Carol, vivido por James Gandolfini (A Família Soprano), é o principal deles. Representa a confusão egocêntrica e impetuosidade de Max e, não por acaso, torna-se o favorito do menino. A jornada é fruto justamente desses sentimentos. Gandolfini é o maior trunfo de Onde Vivem os Monstros e a cena em que Carol carrega Max nas costas um retrato do próprio filme. A voz anasalada, em que fragilidade, angústia e poder caminham juntos o tempo todo, é Tony Soprano pura.


Ao lado de Gandolfini estão Paul Dano (o bode carente Alexander), Catherine O'Hara (a agressiva Judith), Forest Whitaker (o amável e criativo Ira), Michael Berry Jr. (o contemplativo e melancólico Touro) e Chris Cooper (o solícito e companheiro Douglas). Completa o elenco Lauren Ambrose (a Claire de A Sete Palmos) como KW, o único sentimento externo à Max - o materno.


Em cada um existe o medo e  a dor


As relações funcionam de maneira excepcional. Cada diálogo entre os habitantes da ilha, uma tentativa infantil de compreender mudanças. Como o livro, Onde Vivem os Monstros é uma metáfora de crescimento interessante.
Enquanto fica nesse campo das sugestões, o filme é ótimo. O roteiro, porém, tem problemas. Talvez acreditando que ele funcionaria para crianças (não funciona, é adulto demais), Jonze parece ter sentido necessidade de explicar demais certos aspectos. Pegue a cena em que Max inventa à mãe a deprimente história do vampiro que mordeu um prédio, por exemplo. Serve como desnecessária introdução à criatividade do menino, algo que já estava claro apenas observando seu quarto, suas brincadeiras. Sendak precisou apenas de uma ilustração para mostrar isso. Jonze, verborrágico, lança mão de minutos de película.

A lealdade



Ao menos acompanha esse falatório constante uma direção de fotografia inspirada. Lance Acord repete a parceria de Quero Ser John Malkovich e Adaptação com Jonze, dando uma poética qualidade de filme independente ao longa de grande estúdio. Já a alardeada trilha sonora de Karen O., ex-namorada do cineasta e vocalista do Yeah Yeah Yeahs, ainda que excelente pra ouvir como álbum, é um pouco opressiva durante o filme. Funciona muito melhor durante as (poucas) cenas de ação - como a da "bagunça geral" e a guerra de bolas de lama - do que sobrepondo-se aos diálogos. É informação demais.


Enfim, é um filme esquisito. Infantil indie norte-americano pra adultos feito por um estúdio major, a Warner Bros. E vale lembrar que Jonze precisou de um ano a mais - e mais dinheiro - para terminá-lo depois que os produtores pediram a ele que equilibrasse melhor sua visão como cineasta e as necessidade de mercado, algo que oferecesse entretenimento ao grande público. Será que as explicações desnecessárias partiram dessa demanda? Ou o filme era simplesmente esquisito demais? A resposta deve se perder na história do cinema, já que o corte anterior não deve ver a luz do dia. Só o que se sabe mesmo é que, goste ou não, os monstros agora vivem também nas telas.

Um olhar profundo para sua essência



Veja o trailer:





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domingo, 17 de abril de 2011

O Pequeno Príncipe - O encontro com a Raposa

"O Pequeno Príncipe", de Antoine de Saint-Exupéry

O principezinho e a raposa


E foi então que apareceu a raposa:

- Bom dia, disse a raposa.

- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho que se voltou mas não viu nada.

- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...

- Quem és tu? perguntou o principezinho.

Tu és bem bonita.

- Sou uma raposa, disse a raposa.

- Vem brincar comigo, propôs o princípe, estou tão triste...

- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa.

Não me cativaram ainda.

- Ah! Desculpa, disse o principezinho.

Após uma reflexão, acrescentou:

- O que quer dizer cativar ?

- Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras?

- Procuro amigos, disse. Que quer dizer cativar?

- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa.

Significa criar laços...

- Criar laços?

- Exatamente, disse a raposa. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos.

 
E eu não tenho necessidade de ti.

E tu não tens necessidade de mim.

Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás pra mim o único no mundo. E eu serei para ti a única no mundo...

Mas a raposa voltou a sua idéia:

- Minha vida é monótona. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei o barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora como música.
 
E depois, olha! Vês, lá longe, o campo de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelo cor de ouro. E então serás maravilhoso quando me tiverdes cativado. O trigo que é dourado fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento do trigo...

A raposa então calou-se e considerou muito tempo o príncipe:

- Por favor, cativa-me! disse ela.

- Bem quisera, disse o principe, mas eu não tenho tempo. Tenho amigos a descobrir e mundos a conhecer.

- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não tem tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres uma amiga, cativa-me!

Os homens esqueceram a verdade, disse a raposa.

Mas tu não a deves esquecer.

Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas

E voltou, então, à raposa:

- Adeus disse ele...

- Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.

- O essencial é invisível para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de lembrar.



A raposa


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sábado, 16 de abril de 2011

Cora Coralina - A Grande Poetisa

Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas - Cora Coralina


Cora Coralina, pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, (Cidade de Goiás, 20 de agosto de 1889 — Goiânia, 10 de abril de 1985) foi uma poetisa e contista brasileira. Cora Coralina, uma das principais escritoras brasileiras, publicou seu primeiro livro aos 76 anos de idade.

Mulher simples, doceira de profissão, tendo vivido longe dos grandes centros urbanos, alheia a modismos literários, produziu uma obra poética rica em motivos do cotidiano do interior brasileiro, em particular dos becos e ruas históricas de Goiás.

É avó das jornalistas Ana Maria Tahan e Célia Bretas Tahan

Filha de Francisco de Paula Lins dos Guimarães Peixoto, desembargador nomeado por D. Pedro II, e de Jacinta Luísa do Couto Brandão, Ana nasceu e foi criada às margens do rio Vermelho, em casa comprada por sua família no século XIX, quando seu avô ainda era uma criança. Estima-se que essa casa foi construída em meados do século XVIII, tendo sido uma das primeiras edificações da antiga Vila Boa de Goiás.

Começou a escrever os seus primeiros textos aos quatorze anos de idade, publicando-os nos jornais locais apesar da pouca escolaridade, uma vez que cursou somente as primeiras quatro séries, com Mestra Silvina. Publicou nessa fase, 1910, o conto Tragédia na Roça. Casou-se em 1910 com o advogado Cantídio Tolentino Bretas, com quem se mudou, no ano seguinte, para o interior de São Paulo. Viveria no estado de São Paulo por quarenta e cinco anos, inicialmente nos municípios de Avaré e Jaboticabal, e depois em São Paulo, para onde se mudaria em 1924. Ao chegar à capital, teve que permanecer algumas semanas trancada num hotel em frente à Estação da Luz, uma vez que os revolucionários de 1924 haviam parado a cidade. Em 1930, presenciou a chegada de Getúlio Vargas à esquina da rua Direita com a praça do Patriarca. Um de seus filhos participou da Revolução Constitucionalista de 1932.

Com a morte do marido, passou a vender livros. Posteriormente mudou-se para Penápolis, no interior do estado, onde passou a produzir e vender linguiça caseira e banha de porco. Mudou-se em seguida para Andradina, até que, em 1956, retornou para Goiás. Ao completar cinquenta anos de idade, a poetisa relata ter passado por uma profunda transformação interior, a qual definiria mais tarde como "a perda do medo".

Nesta fase, deixou de atender pelo nome de batismo e assumiu o pseudônimo que escolhera para si muitos anos atrás. Durante esses anos, Cora não deixou de escrever poemas relacionados com a sua história pessoal, com a cidade em que nascera e com ambiente em que fora criada. Ela chegou ainda a gravar um LP declamando algumas de suas poesias. Lançado pela gravadora Paulinas Comep, o disco ainda pode ser encontrado hoje em formato CD. Cora Coralina morreu em Goiânia. A sua casa na Cidade de Goiás foi transformada num museu em homenagem à sua história de vida e produção literária.


A poetisa em arte


Livros e outras obras
 
Estórias da Casa Velha da Ponte (contos)
Poemas dos Becos de Goiás e estórias mais (poesia)
Meninos Verdes (infantil)
Meu Livro de Cordel
O Tesouro da Casa Velha
A Moeda de Ouro que o Pato Engoliu (infantil)
Vintém de Cobre
As Cocadas (infantil)
 
 
Nascida Ana Lins Guimarães Peixoto, viveu quase 96 anos; somente na sua última década de vida é que o Brasil a conheceu. Imaginem quem apresentou Cora Coralina para todos os brasileiros? O mestre de Itabira, que sempre nos diz: “Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo”: Carlos Drummond de Andrade.

Sobre Cora Coralina, Carlos Drummond de Andrade nos diz em uma carta dirigida à ela, sob o título: Carta dirigida a Cora (1983):

“Minha querida amiga Cora Coralina: Seu “Vintém de Cobre” é, para mim, moeda de ouro, e de um ouro que não sofre as oscilações do mercado. É poesia das mais diretas e comunicativas que já tenho lido e amado. Que riqueza de experiência humana, que sensibilidade especial e que lirismo identificado com as fontes da vida! Aninha hoje não nos pertence. É patrimônio de nós todos, que nascemos no Brasil e amamos a poesia…”

Muito mais que poetisa e contista, era uma sábia! Na sua sabedoria, escrevia coisas simples e repletas de lições para a vida. Uma delas?

Cora Coralina


 
Saber Viver

Não sei… Se a vida é curta
Ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos
Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo,
É o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
Não seja nem curta,
Nem longa demais,
Mas que seja intensa,
Verdadeira, pura… Enquanto dura.



Fontes
Google Imagens


terça-feira, 8 de março de 2011

A Arte da Guerra

Minha sugestão de leitura:


A Arte da Guerra (chinês: 孫子兵法; pinyin: sūn zĭ bīng fǎ literalmente "Estratégia Militar de Sun Tzu"), é um tratado militar escrito durante o século IV a.C. pelo estrategista conhecido como Sun Tzu. O tratado é composto por treze capítulos, onde em cada capítulo é abordado um aspecto da estratégia de guerra, de modo a compor um panorama de todos os eventos e estratégias que devem ser abordados em um combate racional. Acredita-se que o livro tenha sido usado por diversos estrategistas militares através da história como Napoleão, Zhuge Liang, Cao Cao, Takeda Shingen, Vo Nguyen Giap e Mao Tse Tung.

Desde 1772 existem edições européias (quatro traduções russas, uma alemã, cinco em inglês), apesar de serem consideradas insatisfatórias. A primeira edição ocidental tida como uma tradução fidedigna data de 1927.

A Arte da Guerra foi traduzido para o português por Caio Fernando Abreu e Miriam Paglia (1995).
Apesar da antiguidade da obra, nenhuma obra ou tratado é tão compreensível e tão atual quanto A Arte da Guerra.

Com seu caráter sentencioso, Sun Tzu forja a figura de um general cujas qualidades são o segredo, a dissimulação e a surpresa.

Edição de bolso americana de A Arte da Guerra.Hoje, A Arte da Guerra parece destinado a secundar outra guerra: a das empresas no mundo dos negócios. Assim, o livro migrou das estantes dos estrategistas para as do economista e do administrador.

Embora as táticas bélicas tenham mudado desde a época de Sun Tzu, esse tratado teria influenciado, segundo a Enciclopédia Britânica, certos estrategistas modernos como Mao Tsé-Tung, em sua luta contra os japoneses e os chineses nacionalistas.

Inclusive encontra-se nos escritos militares de Mao-Tse-Tung citações do livro A Arte da Guerra de Sun Tzu.




Fonte: